Segurança
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Escola e violência
Robson Sávio Reis Souza *
Um bombardeio de informações acerca de violência nas escolas toma conta do noticiário nos últimos tempos. Porém, a violência na escola não é um fenômeno novo. Há relatos desse fenômeno desde o século passado. Porém ultimamente mudou a forma de manifestação da violência no âmbito escolar. As agressões agora são muito mais graves: homicídios, estupros e presença e presença de armas no ambiente escolar. Os envolvidos são cada vez mais jovens e há relatos constantes do número de intrusões externas, como acertos de conta que se iniciam fora da escola. Há uma crise de autoridade e legitimidade da escola, como ocorre também em relação à família e outras instituições.
Para trabalhar as várias formas de manifestação da violência no ambiente escolar, Bernard charlot, sociólogo Francês, propõe algumas distinções. O termo termo violência , na escola se refere ás violências que ocorrem dentro da instituição escolar,mas não estão ligadas ás suas atividades. São exemplos dessa violência, os roubos, invasões e acertos de contas por grupos rivais, Nesse caso, a escola é apenas um local onde a violência ocorre. A violência à escola é a violência ligada à natureza e ás atividades da instituição educacional. Ela ocorre quando os alunos provocam incêndios e agridem os professores por exemplo, ou seja, a violência contra a instituição ou contra aquilo que ela representa. Porfim,há também a violência da escola, que é institucional e simbólica e se manifesta , por exemplo, na forma como a instituição escolar defini os modos de composição das classes, as formas discricionárias de atribuiçao de notas pelos professores, etc.
E muito importante compreender que a violência está espraiada na sociabilidade moderna. Desde a violência intra familiar {característica da nossa sociedade patriarcal e machista}, passando por várias modalidades de violências interpessoais{ no trânsito,por exemplo} e aquela associada ás drogas vivemos numa sociedade que naturaliza e banaliza as várias formas as várias formas e manifestações da violência. Por que pensar que a escola estaria desse contexto? Aliás, passa a ser papel da escola tratar dessa sociabilidade violenta. Pois, fundamentalmente,a escola deveria formar cidadãos capazes de conviver com as diferenças.
A violência nos estabelecimentos escolares tem, muita muitas vezes, relação com desordens socioambientais. Quando se analisam as escolas com altos índices de violência, verifica-se numa situação de forte tensão. Os incidentes são produzidos nesse fundo de tensão social e escolar onde um pequeno conflito pode provocar uma explosão. As fontes de tensão podem estar ligadas ás relações familiares e comunitárias. Por isso, é importante a articulação da escola e suas práticas de ensino com a sociedade em seu entorno.
Ademais, as queixas dos professores podem se transformar em discursos de vitimização. E como vítimas, os educadores se colocam num lugar de impotência frente aos problemas da violência e da aprendizagem de seus alunos. Não se trata aqui de minimizar ou negar os dilemas enfrentados pelos professores no cotidiano escolar. Eles são graves. Porém, é possível encontrar alternativas para a solução dos eventuais conflitos quando os profissionais da educação se colocam, também, como sujeitos responsáveis pelos processos educativos dos alunos e não meros transmissores de um conhecimento muitas vezes distante da realidade escolar na qual atuam.
Trabalhando de forma isolada, a escola não encontrará soluções possíveis e ainda ocorrerá o risco de entrar num círculo vicioso de perpetuação de uma lógica criminalizante e repressiva. Os problemas da violência são complexos e nenhuma instituição sozinha poderá resolvê-los, sendo necessário um trabalho ampliado com outros segmentos sociais e governamentais. Num cenário de corresponsabilidade, deve-se analisar e enfrentar a violência como algo complexo e não apenas como um ato isolado, procurando descriminalizar os conflitos e trabalhá-los pedagocicamente.
O pior dos mundos, no entanto, é essa espetacularização da violência na escola, que serve somente pra a implementação de respostas simplistas , ampliação do mercado privado de segurança, criminalização de segmentos infantojuvenis e o retorno ao velho discurso da repressão como lenitivo para o enfrentamento de um problena que demanda a responsabilização de todos os atores do processo educativo: pais, professores, diretores, comunidades, governos e especialistas.
* Filósofo, especialista em estudos de criminalidade e segurança pública, sócio do Fórum Brasileiro de Segurança Pública